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Lendas - Suplemento para Era do Caos













Ilustrações: esquerda, Eliane "Lilith" Bettocchi; direita, Lucas

A selva é aqui.

Os primeiros habitantes das terras que viriam a formar os países do Novo Mundo acreditavam que diversos espíritos guardavam os animais, rios, montanhas e florestas; fossem eles habitantes de civilizações complexas como os Incas ou simples como as tribos da selva. Um profundo respeito caracterizava a busca pela harmonia com os espíritos da natureza, mesmo na construção das grandiosas cidades incas.
Os homens brancos chegaram com suas armas de fogo, couraças de metal, cavalos e doenças. Os nativos resistiram com astúcia, coragem e a ajuda dos espíritos. Os homens brancos venceram.
Civilizações foram esmagadas, povos escravizados e florestas destruídas. Cidades e fazendas cobriram a terra, abrigando elites soberbas e aventureiros inescrupulosos.
A ordem se impôs, mas a guerra nunca terminou. Dos conquistadores ibéricos às ditaduras militares do século da democracia, a luta nunca cessou. Nestes anos de transição e incerteza, os espíritos da terra se erguem uma vez mais.
Lendas é um suplemento que trata dos seres místicos da América do Sul, principalmente do Brasil. São seres sobrenaturais ainda mais integrados à sociedade humana do que os Noturnos. Através de seus hospedeiros humanos ou da reencarnação, Iaras, Botos, Curupiras e Kanaímas tentam se adaptar ao mundo à sua volta.

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"Nós já estávamos aqui antes dos homens brancos chegarem com sua mensagem de escravidão, cobiça e intolerância. Nossa vida flui pelos rios, nossa força corre pelas florestas, nós somos parte do espírito e da magia da terra."

Jurupari

Ilustração Eliane "Lilith" Bettocchi


OS ESPÍRITOS DA TERRA

Curupiras
Um dos maiores mitos dos nativos. O ser sobrenatural que habitava as matas, inspirava terror aos índios, exigia tributos para deixá-los em paz, determinava leis e às vezes concedia favores a seus favoritos. Seu poder foi quebrado com a chegada dos homens brancos e a destruição das matas. Ele manteve várias formas, Curupira, Caipora, Flor-do-Mato, todas com a mesma missão. A preservação da vida.
Nos dias de hoje, para se manifestar sobre a terra, o Curupira precisa de um hospedeiro humano. Em troca dos poderes do Curupira, o hospedeiro recebe sua missão e código de honra. Um pacto que deve ser negociado, nunca imposto. Seja nas matas, seja nas selvas de concreto, a missão do curupira continua a mesma.
Ilustração Ricardo Guimarães


|Celina, Flor do Mato| |Curupiras do Rio|

Iaras
Lindas, sedutoras, as iaras habitam os rios, lagos e mares. Possuem uma forma humana e outra mística, na qual o torso feminino termina em uma cauda de boto. Elas cantam e seduzem seus amantes, afogando-os ou devorando-os, ou devolvendo-os extasiados.
Iaras reencarnam, nascendo de flores aquáticas. Tornam-se meninhas de uns cinco anos, sem memórias de sua vida. Na adolescência, recuperam a memória e identidade.
As iaras se preocupam em preservas as águas por uma razão bem simples: dependem delas para renovar seu poder e costumam nadar e viajar por elas. Afinal, quem gostaria de nadar pelos rios e baias das grandes cidades?
Ilustração Mario Alberto Lopes

Botos
Este sedutor das águas aparece nas festas como um belo rapaz que seduz as moças. Seus olhos negros as encantam completamente e elas se deixam levar para a beira do rio, onde fazem amor por horas.
O boto também possui duas formas: uma humana e a forma de um boto. Eles possuem a mesma sedução e sexualidade das iaras. Porém, sua sedução está no olhar e não no canto. Botos reencarnam, nascendo de botos nos mares e rios Tornam-se meninhos de uns cinco anos, sem memórias de sua vida. Na adolescência, recuperam a memória e identidade. Os botos são inconseqüentes e brincalhões, desfrutando da vida, de seus poderes e da sexualidade. Eles dependem das águas tanto quanto as iaras para manter seus poderes e, obviamente, fazem de tudo para preservá-las.
Ilustração Thais Linhares e Eliane "Lilith" Bettocchi

Kanaíma
O predador perfeito. Kanaímas são os homens-jaguar, as mulheres-onça. Algumas vezes, o espírito de uma onça encarna em um ser humano. Outras vezes, o espírito de um ser humano encarna em uma onça. Essa união pode ser agradável ou terrível, amistosa ou furiosa; porém, sempre mortal.
O espírito humano é o dominante em qualquer um dos casos, mas a onça sempre luta pelo controle. Kanaímas tem três formas: humana, feral e onça. Quanto mais próximo da onça estiver o kanaíma, mais bestial será sua forma feral.
O kanaíma busca proteger seu território, normalmente a parte da cidade onde vive, atacando outros "predadores" que o invadam. Muitas vezes ele devora suas presas, devorando com elas, aos poucos, sua própria humanidade.
Ilustração Mario Alberto Lopes